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O
MEDO DE ENGORDAR
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"O
medo de engordar traz uma preocupação excessiva
pelo corpo ou por algumas de suas partes, pode chegar
a ser altamente perturbador, causar grande transtorno
emocional e intervir na vida diária."
Ninguém está contente com o seu corpo. Cada
vez mais se fortalece uma preocupação em
termos do medo de engordar, principalmente em mulheres
jovens. O que isso pode representar? Uma busca da saúde
ou a expressão de uma DOENÇA? Psicopatologia?
Nesse contexto devemos atentar ao medo, um sentimento
de grande inquietação ante a noção
de um perigo, real ou imaginário, de uma ameaça.
Então já imaginamos que o medo do peso aumentado
na balança tem seu correspondente na cabeça.
Que medos? O medo intenso de aumentar de peso e a percepção
distorcida do corpo com uma forte influência do
meio social e ambiental.
Os medos conduzem a um constante aumento na insatisfação
com a imagem corporal (IC), levando, cada vez mais, ao
desencadeamento de transtornos alimentares. A imagem corporal
é a percepção tridimensional que
todos têm de si mesmos e que, sem dúvida,
é fundamentalmente alterada pelo transtorno e também
leva a perpetuá-lo. A imagem corporal não
é somente o espaço ocupado pela pessoa,
mas tudo que se origina no corpo ou que dele emana como
a voz, a respiração e os odores. Também
inclui determinados objetos que caracterizam e identificam
uma pessoa: pastas, bolsas, guarda-chuvas, óculos,
bengalas, etc.
O medo de engordar traz uma preocupação
excessiva pelo corpo ou por algumas de suas partes, pode
chegar a ser altamente perturbador, causar grande transtorno
emocional e intervir na vida diária. Pequenos defeitos
são percebidos de modo exagerado. A pessoa os vê
como maiores, mais intensos ou mais desviados do que são
na realidade. Está magra e se vê gorda, está
gorda e se vê magra.
TRANSTORNOS ALIMENTARES
O medo de engordar é questão nuclear nos
transtornos alimentares: Anorexia Nervosa (AN), Bulimia
Nervosa (BN) e o Transtorno do Comer Compulsivo (TCC).
Estes expressam uma forma arcaica de enfrentar a vida.
É uma história sem palavras, tendo o corpo
como cenário, o ato de comer como palco: restringindo
deliberadamente a ingestão alimentar ou exagerando
com o ataque de comer. O corpo fala e fala especialmente
daqueles sentimentos que ainda não puderam ser
expressos com o simbolismo das palavras, então
padece o corpo com o medo de engordar, a docilização
do corpo e os mecanismos evitativos para não engordar.
Os TAs são distúrbios que recebem uma forte
influência da sociedade. O corpo feminino magro
é encarado nas sociedades ocidentais como símbolo
de beleza, saúde e autocontrole. O ideal da magreza
feminina está se transformando numa verdadeira
obsessão epidêmica - a corpolatria.
Esse capítulo tem a intenção de pontuar
alguns aspectos clínicos dos transtornos alimentares
enfatizando o medo de engordar.
ANOREXIA NERVOSA
O médico inglês Richard Morton em 1689 descreveu
o primeiro caso de Anorexia Nervosa, referindo ser uma
pessoa em que o "esqueleto está apenas tapado
pela pele" devido ao acentuado estado de magreza
auto-imposta. As características clínicas
são a procura incansável da magreza, através
da negação do apetite e não da falta
de apetite; a presença do transtorno da imagem
corporal; o modo de viver centrado à dieta e ao
valor calórico dos alimentos e o uso da negação
do transtorno alimentar. As mulheres ficam sem menstruar
pela desnutrição. Esse transtorno revela
uma jovem mulher que descaracteriza sua condição
feminina dentro de um contexto familiar disfuncional.
É um sinal de alerta, um pisca-pisca de que algo
não vai bem consigo e com a família. Existe
uma situação problemática, depositada
na pessoa doente, um labirinto de contradições,
em que o corpo parece ser o centro. Nas descrições
das pessoas acometidas de anorexia nervosa encontramos
o seu corpo como uma caixa de ressonância, cenário
dos dramas íntimos com as respectivas fantasias
inconscientes. Por detrás desta muralha encontra-se
uma jovem assustada, solitária, com um profundo
sentimento de desvalorização e impotência
para lidar com a sua vida. A anorexia nervosa expressa
a patologia dos vínculos simbióticos, uma
falta de autonomia e individualidade, incapacidade de
separação de suas mães, intensa e
mútua dependência mãe-filha, com pais
omissos e percebidos como desvalorizados. Está
instalada a fome de amor e não de comida.
Quem melhor relata o medo de engordar são os pacientes.
Uma jovem de 14 anos filha de um casal em desarmonia,
com ameaças de separação, cujo pai
é um trabalhador incansável (workaholics)
com pouco tempo de convívio em casa e a mãe
de características sufocantes, preocupada com o
futuro e tentando resolver as dificuldades diárias.
A filha necessita dar explicações de qualquer
movimento de autonomia. Quanto aos hábitos alimentares
da família, o pai não se preocupa, come
de tudo. A mãe sempre falando da importância
de emagrecer, compra alimentos de baixa caloria e revistas
de boa forma. A filha começou a ficar mais calada,
introspectiva e evitando os alimentos.
Ao ser indagada disse adotar a alimentação
vegetariana e cuidar do peso. Por vezes não comparecia
aos chamados para comer a mesa. Sob insistência
conseguia levar o prato para o seu quarto, comia pouco
e parte despejava por trás das gavetas ou no vaso
sanitário. Quando a mãe descobria os restos
de alimentos, dizia nada saber. Com o término do
inverno a família percebeu o acentuado emagrecimento
da filha. A paciente negava a perda de peso e não
se percebia magra. Ao ser indagada do por que ser vegetariana
e estar restringindo a alimentação dizia
do medo de engordar já que se via dessa maneira,
gorda.
BULIMIA NERVOSA
A BN foi descrita pelo médico inglês Gerald
Russel em 1979 e se caracteriza pela compulsão
alimentar com sensação de completa perda
de controle. Para não engordar, apresenta, a seguir,
um comportamento compensatório dirigido ao controle
do peso corporal através das purgas (eliminação
por baixo e/ou por cima, com a prática do vômito
auto-induzido, uso de laxativos, diuréticos, enemas
- é a patologia dos orifícios) e das atitudes
restritivas com jejuns e práticas exagerada de
exercícios físicos (malhar, suar para eliminar).
Aqui há também uma extrema preocupação
com a forma, o tamanho e o peso corporais. As pessoas
com BN podem ter o peso ideal, diminuído ou aumentado.
A BN é um transtorno oculto e as pessoas levam
em torno de cinco anos para buscar ajuda, devido a sentimentos
de culpa, vergonha e não reconhecimento como um
problema de saúde.
Um dos objetivos no tratamento psicoterápico proposto
é o de restituir a capacidade de verbalizar sua
trama conflitiva ao invés de utilizar o alimento
como uma baderna e deixar a palavra vomitória no
vaso sanitário.
Quem melhor relata o medo de engordar são os pacientes
em tratamento médico.
"Falar em Bulimia Nervosa, implica sofrimento, uma
vez que este desequilíbrio alimentar está
arruinando minha existência.
Sinto-me indefesa diante da comida, ela é mais
forte que eu, não consigo controlar o impulso de
comer demasiadamente, então eu perco a razão.
É doloroso perceber que sou dependente de uma coisa
tão elementar como a comida, porque as pessoas
não entendem como tudo se processa. Para a maioria
das pessoas, comer é bom, saudável e normal,
para uma bulímica comer é empanturrar-se,
é mal-estar na certa; é ter crises de choro
após cada abuso alimentar e quase sempre foram
ingeridos alimentos sem valor nutricional algum, apenas
calóricos. Comer é desagradável,
significa que estou doente e quando vomito é como
se eu estivesse me purificando, tirando todo aquele 'lixo'
de dentro de mim, mas fica mais complicado quando não
consigo vomitar, aí eu fico 'suja' e só
quero me tornar mais 'suja' ainda.
Pensar em comida 24 horas por dia quando já se
está satisfeita do ponto de vista orgânico,
é terrível, porém, psicologicamente
estou vazia, daí a necessidade de comer sem limites,
mas não posso, nem quero.
É desastroso tudo isso, às vezes penso que
vou morrer assim: comilona, gorda, solitária, triste,
com a auto-estima destruída e fragilizada por todas
as experiências que já passei: uso de laxantes
em altas doses, remédios emagrecedores, exercícios
físicos intensos, preocupações, abusos
e exageros. E eu, como fico nisso? Um fragmento do nada.
Foi o que restou de mim."
TRANSTORNO DO COMER COMPULSIVO
É um transtorno alimentar que ainda está
em estudo para ser reconhecido, embora já na década
de cinqüenta Stunkard tenha identificado a prática
da orgia alimentar em alguns pacientes acometidos de obesidade.
Ocorre uma fissura por alimentos doces e ricos em carboidratos,
caracterizando o ataque de comer- o binge - e a alteração
da imagem corporal. Esse ataque de comer de forma episódica
e recorrente têm algumas características:
comer mais rápido do que o normal, até sentir-se
desconfortável, empanturrado; comer sem ter fome
- não espera o ronco da barriga; comer sozinho
por sentir-se envergonhado. Após o binge sente-se
arrependido ou culpado, com grande mal estar psicológico.
Aqui têm uma peculiaridade: as pessoas não
se engajam em comportamento compensatório inadequado
para emagrecer (purgação, jejuns e exercícios
excessivos). Essas características clínicas
não devem ocorrer durante o curso de anorexia nervosa
ou bulimia nervosa.
Esse ataque de comer é um comportamento estereotipado,
repetitivo e ritualizado com a ingestão de grande
quantidade de alimento, em curto espaço de tempo
(mais ou menos duas horas), com sensação
de perda de controle e sentimento de culpa.
A compulsão alimentar é um fenômeno
psicopatológico que tem o poder de fogo de dificultar
o sucesso dos tratamentos prescritos, fortalecendo o sentimento
de desilusão já presente na maioria dos
pacientes com obesidade que procuram os programas de emagrecimento.
Essa compulsão está presente nos transtornos
alimentares BN e TCC e com menos freqüência
na AN.
Curiosamente a compulsão alimentar pode ocorrer,
em algumas situações, sem que se caracterize
um transtorno. Poderá ser um prazer alimentar,
ou seja, aproveitar ao máximo aquele banquete com
comidas especiais; após dietas severas de jejuns
prolongados, e pela fome exagerada por ter permanecido
muito tempo sem comer, come um boi pela perna. As pessoas
que "beliscam" o dia todo pequenas quantidades
de alimentos, acabam engordando, mas não se enquadram
no TCC.
O distúrbio da imagem corporal é encontrado
em torno de 40 a 50% dos obesos e essa alteração
dificulta o prognóstico, como se disséssemos
"o corpo emagrece e a cabeça continua de gordo,
ou seja, como a cabeça é poderosa, o corpo
volta a ser gordo".(Barros, 1994, p.111).
Quem melhor relata o medo de engordar são os pacientes.
"...na balança emagreci, mas, ao passar na
porta, entro de lado e devagar, como fazia quando gorda".
"...funcionava como um aspirador de pó dentro
das panelas e geladeira. Nesse período, só
me preocupava em comer, causando apreensão nos
familiares. Enxergava mas não me via no peso aumentado".
"Quando se emagrece se pode falar do que se come
e se escolhe melhor o que comer, diferentemente do que
acontecia nos episódios compulsivos, comendo tudo
o que encontrava sem escolha".
"Como sem fome e sem controle, como se o alimento
fosse um tranqüilizante, como a sensação
de nascer de novo".
CONCLUSÕES
O medo de engordar não está necessariamente
vinculado à qualquer patologia. Pode decorrer de
uma insatisfação natural com o corpo que
a "mãe natureza" proporcionou e a pessoa
deseja modificar através dos meios adequados. No
caso de ser expressão de um transtorno alimentar,
não devemos restringir sua compreensão ao
fenômeno em si. O medo de engordar é muito
mais que o medo medido na balança. Faz parte de
um sistema emocional que afeta todos os aspectos da vida,
reais e fantasiosos. A pessoa tem uma representação
social e está inserida dentro de um contexto sócio-familiar
amplo. É necessário buscar traduzir essa
expressão arcaica pela trajetória do medo
de engordar e o conseqüente ato de comer bizarro.
É a busca de um idioma que permita o diálogo,
com possibilidades de mudanças.
Um já antigo mas sempre atual lembrete: "Não
te esqueças que as palavras são os médicos
das almas transtornadas" (Ésquilo, poeta dramático
grego, 525-456aC).
Obras consultadas:
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, Diagnostic and Statistical
Manual of Mental Disorders. Fourth Edition. American Psychiatric
Press, Washington, DC, 1994.
BARROS, C A S M de. Alcoolismo, Obesidade, Consultoria
Psiquiátrica. Porto Alegre : Movimento, 1994.
BARROS, C A S M de. Psicopatologia na Obesidade. Revista
de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, vol.
18, n. 2, p.282-284, maio/ago, 1996.
BARROS, C A S M de. Grupos com pacientes bulímicas.
In: MELLO FILHO, J. (org) Grupo e Corpo: Psicoterapia
de Grupo com Pacientes Somáticos. Porto Alegre
: Artes Médicas, 2000, p.295-306.
Agradecimentos:
Aos estimados pacientes pelo consentimento em desvendar
o medo de engordar. Aos amigos psicóloga Cíntia
Leite Nahra pelas sugestões e ao médico
Paulo Douglas Antunes Sá pelos desenhos do transtorno
da imagem corporal.
CARLOS ALBERTO SAMPAIO MARTINS DE BARROS
Médico Psiquiatra.
Sócio Efetivo da Sociedade de Psiquiatria do RS.
Docente dos Cursos de Medicina e Especialização
LS em Clínica Psiquiátrica da Universidade
Luterana do Brasil (ULBRA). Docente colaborador do Centro
de Estudos da Família e do Indivíduo - Porto
Alegre. CREMERS 14911.
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